Siesmayerstraße estava quieta como sempre, mas, no dia de natal, ainda mais. De tempos em tempos, o silêncio dessa rua era rompido pelo canto do corvo. Olívio abriu a janela e sentiu a rajada gélida raspando sua barba, gostava de respirar o ar frio do inverno de Frankfurt. Eram 16h e o sol ensaiava suas cores laranja-rosa com aroma de cáucaso quando se guardou azulado-escuro às 16h30. A noite da cidade surgia entre um piscar de olhos e o som do pássaro.
Olívio morava entre a sua faculdade, Botanische Garten, e Palmengarten. Apesar do senso de solidão combinado à localização pacata, nos meses de verão sentia-se vigoroso e mais conectado à cidade. Nos dias chuvosos era comum deparar-se com lesmas na calçada que o levava até Goethe-Universität, e, não raro, esses pequeninos seres da natureza tinham o poder de transportá-lo ao recôncavo do alpendre da sua casa. Em cenários de chuva, o quintal da casa ficava como tapete verde musgo-aveludado e nas suas memórias, ele sentia o cheiro úmido e cálido da grama e das paisagens áridas do cerrado goiano.
Estava distante da sua terra e iria passar a noite de natal sozinho. Pela primeira vez, depois de muito tempo, sentia o vazio do distanciamento, o tempo passando no anonimato de si, como a surrupiar-lhe as vozes, o cheiro do peru assado ao molho de laranja, as risadas alheias na cozinha. Começava a achar que sua língua lhe escapava como que estranho de si mesmo, numa terra estrangeira. “Qual seria a língua dos homens?” Queria sentir algo de universal, algo que talvez pudesse fazer com que não fosse flagrante sua solidão naquela cidade. “Sozinho?” falou em voz alta, percebendo que há dias não escutava a própria voz. Lembrou-se da famosa frase “prefiro pessoas a couves-flores”, que, no seu torpor diante das lentilhas soube, “prefiro um amor a lentilhas”.
Olívio se deu conta de que não tinha essa opção, não naquela hora, naquele dia e naquela noite. “Quem sabe São Nicolau realiza meu desejo”. E foi nesse ribombar de cores e paletas, entre o dia e a noite, num interstício de uma estrela cadente pingando em direção ao Botanischer, antes mesmo de formular em pensamento seu maior desejo, que o jovem escutou o guizo. Este, diferente do canto da gralha, chamou sua atenção justamente por não estar diluído no seu poro.
Escutou o som e identificou o guizo, como o de seu avô, nas noites de natal, em que se vestia de papai noel, chegava com o brinquedo (havia esquecido de como gostava) e, de repente, o estralo Tri-Lim-Lim Lim-Lim interrompe seu estado de ânimo. Procurou pela janela e viu um animal correndo da calçada em direção a Palmengarten. Pegou sua japona e sua lanterna. Desceu feito um boneco emplumado em direção ao jardim à procura daquele ser, era um cachorrinho. O rapaz pressentiu que não poderia deixá-lo sozinho naquela noite fria, conforme prometida por ser a noite de natal.
Correu na direção vista e se aproximou da entrada escura daquele local, nenhuma alma viva, somente o silêncio e as testemunhas dos seres de olhos noturnos. Os portões estavam fechados, teve que pular o muro e, se não fosse a certeza de que do outro lado não haveria um Epaminondas, certamente teria desistido. A essa altura, Olívio era sagaz, já sabia que os homens eram mais perigosos do que a própria natureza. Atravessou a entrada e escutou: era o guizo a lhe guiar a direção. Seja como for, Olívio seguiu o caminho do eco que o som provocava no seu coração. Estava com calor quando percebeu um movimento no presépio iluminando à entrada do Jardim. Provavelmente por ter palhas, o cachorrinho deitara em busca de calor. Aproximou-se com sua lanterna e percebeu tratar-se de um cachorro dócil, pois abanou sua cauda e deitou-se ao seu lado de barriga para cima. Era uma fêmea. Olívio não resistiu àquela criaturinha mansa, de pelos longos e brancos a misturar-se com as plumas da neve que caía. Tirou seu cachecol, embrulhou a pequena. Aquele focinho gélido, achocolatado lhe fez lembrar de sua cachorrinha Bella, que havia morrido. Chamou-a de Lilly. “Vem comigo, pequena, papai noel me deu você de presente.”
Olívio teve muito trabalho antes da sua ceia. Ligou a lareira, fez uma cama improvisada no apartamento e foi preparar a comida. Lilly era pequena, deveria ter quatro meses, espoleta, embora peluda, seus ossinhos despontavam por debaixo dos pelos,deixando antever que estava sem alimento há alguns dias. Olívio, como de costume e há quatro anos no país, havia adquirido alguns hábitos culturais dos seus concidadãos alemães e, na sua cozinha, tinha o Adventskalender, o calendário do advento, do qual, a cada dia do mês de dezembro, retirava-se uma mensagem. Retirou a do dia 24 de dezembro, véspera de natal, na companhia da Lilly, leu em voz alta: “ligar para alguém que mora longe”. Ligou para sua família, contou da surpresa do seu presente, depois, ele e Lilly comeram lentilha ao molho fumegante com carne de pato assado. Olivio bebericou Glühwein enquanto fazia cafuné em Lilly, que já se enroscava no seu colo. Ambos dormiram na sala naquela noite, Lilly, quentinha no seu novo lar, e ele sentindo o amor renascendo em seu coração.
Respostas de 8
Lindo conto natalino! Com final feliz e acontece.
Espírito natalino como esperança , renovação e amor 🫶🏼🫶🏼
Adorei o conto natalino, parabéns! Mais uma pérola para seu novo livro. Feliz Natal e Ano Novo! Bjs
Adoro a época natalina e o espírito natalin 😘🌷
Um Natal e Ano Novo feliz e reconfortante como o conto! =)
Obrigada Gabi 🌷 que venham mais histórias de aconchego e amor 🧡 🧡
Que lugar frio e que quentinho esse conto…
Quentinho no coração 💓