I…] por isso, quando pensamos que perdemos tempo […] estamos muitas vezes trilhando um aprendizado obscuro, até a revelação final de uma verdade desse tempo que se perdeu” Deleuze 2003
Custoso vem do latim custosus, derivado de costus, custo/preço. Também do latim, constare tem o sentido de ficar firme, custar. Essa palavra que parece estar fora de moda, tem valor num processo de analise.
Me ocorreu escrever sobre essa questão porque penso ser urgente.
A psicanálise se funda na fala como tratamento psíquico, teoria e pesquisa e foi construída a partir da escuta clínica, ou seja, a fala.
Falar não é pouca coisa, apesar de ser ordinária e parecer tão natural a nós mesmos.
Não por acaso Freud percebeu o que é falar, a via de uma possível cura. Possível porque, em psicanálise, não se fala em cura como em outras áreas. Em psicanálise cura tem uma acepção específica de tratamento psíquico: o tratamento pela palavra que se transforma e constitui o sujeito.
Talking cure, isto é, o tratamento pela fala, consiste em fazer o sintoma falar, o que significa dizer que aquilo que adoece é o mesmo que cura, o que padece é a chave da força que pode restaurar o sujeito.
Falar é o que ocorre durante uma sessão, é correr riscos em tempo real. Verbalizar pode não ser a melhor performance, o modo mais “seguro”. Quando o sujeito fala, ele pode querer dizer uma coisa dizendo outra, manifesta sua confusão, suas fantasias, seus atos falhos. Ao falar, o sujeito vai aparecer nas suas divisões, incoerência, vulnerabilidade.
Falar é o que não se controla da mesma forma que se controla a imagem no Instagram, como a mensagem enviada. Falar é se denunciar e é aí que habita o tratamento, nas falhas, no deixar aflorar o que lhe vier à mente, preceito dos primórdios da psicanálise.
A palavra custoso pode parecer fora de moda frente às comunicações “online” mas essa palavra não nos ilude, evoca o ofício do artesão, ou seja: constância, trabalho, tempo.