Sibi, a última árvore da rua 17
Quando eu nasci, já sabia o que queria ser. Minha mãe e meu pai diziam que eu teria tempo ainda para escolher, mas, na nossa família, havia uma opção: aprofundar raízes e virar sombreiro, ou morada de aves. Meu avô tinha a fama de ter sido o maior sombreiro por muitos e muitos anos, e minha mãe, aquela que dava raízes, alimentava e nutria em tempos de seca toda a família. Mas, logo de início, houve um grande problema, pois assim que vi o céu azul e aquelas aves sobrevoando, soube o que queria ser: era algo que ninguém da minha família havia sido e não fazia parte das opções que meu pai e minha mãe me deram: queria ser cantor.
Meu próprio nome, desde quando eu ainda estava germinando, era sonoro. Me chamavam Siiiiiiiiibi ou Sibiiiiiiii, e aí eu crescia por dentro de alegria. Crescia mais ainda quando escutava os sussurros vindos de fora, crescia em curiosidade, em vontade de saber de onde vinham aqueles sons. Achava uma delícia o barulho da terra, era oco, forte e às vezes gritante. Quando tirava um cochilo, logo vinham grunhidos, bordoadas, bolhas, gotas, até que, finalmente, pude ver o clarão do céu. Não foi fácil, a primeira luz me ofuscou, demorou algum tempo para me acostumar, mas escutei as boas-vindas Ohhhh!!! Ahhh! Sibbiiii!!! Sim é ele!! O som de fora me invadiu os ouvidos de forma tão astuta que precisei de um tempo para me acostumar. Não era mais o barulho oco de dentro, mas um som aberto. O que eu escutava como sonoridade, mais tarde descobri, era canto: o canto dos pássaros.
Cresci muito rápido, segundo meu pai; apressado, de acordo com minha mãe. Ela me perguntava “para que tanta pressa de crescer?” Eu não sabia responder, mas sentia tanta ânsia, os sons reverberavam em mim e me faziam vibrar. Ouvi todas as histórias da árvore genealógica, a matriarca, meu avô, e as ramificações, até chegar à parte triste. Soube que minha avó e meu avô já haviam partido. Nessa hora, escutei um som baixinho que me despertou um sentimento diferente, descobri que era a tristeza. Eram as lágrimas do meu pai, ele chorava o passado do meu avô, e o chuvisco desceu em mim farfalhando minhas mais recentes folhas. Fui batizado!
Quando minha mãe e meu pai voltavam ao assunto do meu futuro, ou melhor, destino, me explicavam que nascemos predestinados e nossa missão era das mais importantes para a preservação da vida. Fui entendendo a importância desses destinos e que algumas decisões também dependiam de fatores ambientais. Mas eu não queria nem ser a raiz e tampouco a sombra. Me entristecia não conseguir dizer o que realmente gostaria de ser. Me entristecia decepcionar meus pais, afinal, me deram a vida e sofreram tanto no passado, não queria ser mais uma fonte de decepção.
Queria ser grande. Queria o canto dos pássaros.
Continuei crescendo rápido e ligeiro e, dizia minha mãe, eu era ambicioso, queria alcançar o céu. Magro e comprido, eu ia acabar chegando lá! Escutei o que depois soube que eram sorrisos. Meu ser também vibrou e balançou. Um dia, senti umas cócegas diferentes e vários sons, agudos, estridentes, alegres e animados, parecia uma festa acontecendo. Logo escutei minha mãe me dizendo que eu havia sido o escolhido e que era uma grande honra ser o galho que daria morada para o casal de periquitos. Fiquei extasiado, pois eram aves pequenas e muito graciosas fazendo o ninho. Aprendi com eles a ter uma rotina e passei a ter o horário de acordar e de aquietar, pois essas avezinhas acordavam todos, mesmo quem não quisesse.
Meu pai disse-me que quando as aves escolhem uma árvore é porque confiam nela para abrigá-las e protegê-las. Dizia, também, que ser a morada era a missão mais nobre e mais alta que uma árvore poderia almejar e que eles não haviam pensado nessa possibilidade, porque as aves estavam cada vez mais extintas e esse destino das árvores também estava em extinção. Lembrou que o último membro da família a abrigar uma ave foi há séculos. Depois, as gerações das árvores vindouras foram deixando de sonhar.
Nessa hora consegui dizer ao meu pai que meu sonho era cantar…. Eu quero ser cantor. O silêncio da minha mãe e do meu pai me fez sentir um buraco, depois vieram o farfalhar das folhas, a brisa suave, e o cantar dos periquitos ao entardecer. Meu pai e minha mãe me disseram, já noite alta, que me amavam e se sentiam muito orgulhosos por eu trazer a esperança deles de volta. Meu pai ainda me disse, como se fosse uma despedida, “nunca abra mão dos seus sonhos”. Minha mãe sorriu.
Descobri, com o tempo, outros sons difíceis de nomear. Sons metálicos, pois chegaram de repente e podaram meu pai e minha mãe. Me lembro como se fosse hoje. Era num dia de domingo e, por isso, o som metálico foi brutal. Foi demorado, mas o último golpe se foi com a revoada dos periquitos assustados. Essas avezinhas fizeram o sibilar no céu, um som agudo como um assovio doloroso. E aconteceu o que já havia acontecido com todos os meus ancestrais. Ambos tombaram de um lado e de outro. Restou o silêncio, para dar lugar a uma rua de calçada lisa, asfalto reto e cabos de aço.
Depois de uma longa pausa, o silêncio foi rompido por meus inquilinos. Não fiquei só, meus inquilinos me fizeram companhia, vieram outros e, da minha copa, muitas vidas brotaram, muitos sons e cantos ressoaram, eu me tornei um cantor eloquente e também erudito. Vivo em harmonia com as aves. Também fui raiz, pois, cada vez mais, precisei buscar nutrientes abaixo do solo, pois a água foi ficando cada vez mais escassa. Sou sombra também, pois sem o meu pai e minha mãe, meus galhos foram crescendo e tomando conta. Era sempre o meu desejo de abraçá-los do meu lado, mesmo sabendo que ambos não mais ali estavam. Meu tronco se tornou forte, firme e robusto, dei morada para muitas aves e me fiz um cantor solo.
Sou Sibipiruna, a última árvore da rua 17.
Mas ainda canto alto, faço coro com a revoada dos pássaros!
Respostas de 4
Sensacional!!!
Obrigada ☺️
Pelo amor de Deus!!! Que coisa mais linda!!!
Obrigada 💕