Vaca Brava

Vaca Brava!

Mimosa levava uma vida bucólica no “Recanto da Paz”. Era esse o nome do seu aconchego que lhe parecia o melhor de todos os lugares. Lá havia uma pastagem verdinha, que lhe permitia ficar horas e horas mastigando sem pressa. A cadência de sua mastigação era seu estado de espírito mais que perfeito! Mimosa sabia que o ruminar constante significava muito do seu laborioso trabalho mental. Enquanto seu corpanzil ficava imóvel, tinha o olhar fixo no horizonte longínquo.Sua arcada mexia-se numa cadência intermitente, seu pensamento vagava e trabalhava sempre a fim de concatenar as ideias e descobrir a origem e o sentido da vida.

Um dia, ocorreu a Mimosa observar para além das paisagens, e, numa dessas, começou a observar o comportamento das suas vizinhas, vizinhos e vizinhanças. Aconteceu, então, de Mimosa conhecer Aroldo, o grande e único amor de sua vida! Suas vizinhas, vizinhos e vizinhanças eram separados por grupos, idades etc.. Ela estava do lado de cá da cerca, Aroldo estava do lado de lá, a reparar naquela vaquinha e, num estalo repentino e um cheiro hipnotizante, os dois bovinos entonteceram de emoção, mil venturas sobrevoaram aquele par. Os dois viviam assim, até a chegada do caminhão.

Mimosa estava no seu curral, inquieta com a demora em ir às pastagens, onde ficava, aos domingos, à toa, numa liberdade rara e boa. Mas, nesse dia, só avistou um caminhão ao longe, se aproximando. Sua porteira foi aberta com uma única passagem: do curral para o caminhão, todo cercado de madeira, com uma rampa que a levaria direto para aquele cubículo. Suas companheiras começaram a mugir inquietas, teimosas que estavam, foram empunhadas por um espeto enorme a beliscar seus traseiros. Mimosa foi a última a subir, antes de a porta do caminhão se fechar.

Só se ouviu ao longe, ao sair da porteira e avistar a plaquinha “Recanto da Paz”, se distanciar, o mugido doído de Aroldo. Mimosa sentiu o seu coração partir. Viu, com olhos assustados e pupilas dilatadas, a plaquinha sumir. Com suas narinas ofegantes, sentiu o baforido de suas companheiras.

Mimosa foi levada sem, nem ao menos, despedir- se de Aroldo, nenhum adeus!! Sua reação ao perceber que estava sendo levada para longe de seu sossego e de Aroldo teve o peso de seu corpanzil, foi uma reação cavalar, apesar de ser bovina, e veio no momento em que o caminhão passava por uma lombada.

De um só golpe com seu corpo, Mimosa abriu as portas do caminhão e, num salto espetacular, saiu daquela gaiola, caiu de supetão no asfalto e teve que se esforçar muito para se segurar de pé. Quando seu quadril pesava de um lado, o rabo saltava de outro, tentando dosar o peso de uma banda a outra… de molejo em molejo, foi se equilibrando, fugiu até chegar a uma mata fechada.

No momento em que adentrou naquele matagal, sentiu-se perdida e desesperada, mas também sentiu uma força tomar conta de sua alma. Encheu-se de coragem e correu morro acima, sem saber quando e para onde iria, mas seguindo seu coração. Corria sem parar, e, assim, foi até o sol se pôr e Mimosa ver a noite chegar e tudo cobrir com seu manto.

Permitiu-se deitar um pouco, muito cansada e assustada, ficou a escutar o tilintar das folhagens vagas enviadas naquela vastidão, e os grilos a acompanharem num cântico triste de ninar. Nessa sua primeira noite, Mimosa dormia em baixo de um salgueiro que chorava com ela, embalando a tristeza de sua alma. Seu prometido Aroldo, do outro lado do campo, também dormia com muita dor no coração! No Recanto da Paz já não havia paz.

Acontece que Mimosa era vaca malhada e das caras, tinha sido vendida para um desses matadouros em troca de uns poucos trocados para saldar uma dívida de seu proprietário. Logo virou notícia na imprensa e iniciaram-se as buscas pela “Vaca Brava”, como ficou conhecida. Foram muitos dias e noites que Mimosa passou na mata fechada, sem destino e sem abrigo, bebendo água parada e se alimentado das plantas que encontrava pelo caminho até se decidir por procurar suas terras e encontrar pistas.

As saudades de Aroldo e a dor no coração eram suas companheiras fiéis de muitas noites mal dormidas. Mas ela não desistiu, seguiu a passos firmes o seu destino, sempre subindo rumo ao Recanto da Paz.

Eram aproximadamente cinco horas da tarde, num domingo, quando, de repente, Mimosa soube que estava perto do seu destino, pelo cheiro, ela sabia. Era o mesmo cheiro que sentira quando conheceu Aroldo! Mimosa estava chegando ao fim de seu destino, ou, ao menos, dessa parte de sua história. Foi assim que ela reencontrou seu querido e gordo Aroldo, tão amável quanto amado! Abanou o rabinho, deu uma requebradinha de uma banda a outra, olhou ao derredor e sentiu-se mais confiante, depois que se descobriu sozinha.

Ocorreu, porém, que Mimosa sentiu o gostinho da liberdade e outros anseios começaram a rondá-la no fundo de seu ser. Pensou que, talvez, com Aroldo, quem sabe, não poderia conhecer novos e outros lugares?! Por que não?! Afinal, Agora era a Vaca Brava! Observou que a cidade dormia silenciosa, ninguém, exceto Aroldo e outros animais, a viu chegar. Poderia voltar. Avistou todos os ângulos e decidiu retornar, agora que havia alcançado a sua busca.

Ninguém soube, no dia seguinte, ao amanhecer, do destino daquele boi gordo e vistoso. A notícia que se teve é de que fora roubado. Seu sumiço saiu em todos os jornais de domingo nos seguintes termos,

“Atenção: boi raptado!”,

juntamente com a manchete:

“Vaca Brava continua desaparecida. Recompensa-se bem.”.

















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